Engenharia em favor da Sustentabilidade Ambiental, Econômica e Social.

Esta página foi criada para publicações que não são de minha autoria mas que eu resolvi divulgar no site, como forma de esclarecimento, divulgação de campanhas do governo ou outros motivos quaisquer, sempre no intuito de enriquecer as discussões no âmbito do meio ambiente e do meio rural.

Artigos

09/06/2011 11:35

Sobre o Desastre Ambiental em Cataguases

 

    

     Para esclarecimentos e informações a respeito do acidente ambiental ocorrido em 2003 em Cataguases, segue a publicação "Antagonismos no Desastre Ambiental em Cataguases" do Professor do Departamento de Engenharia Florestal da UFV, Sebastião Renato Valverde, escrita logo após o acidente e gentilmente cedida para esse Blog.

 

Antagonismos no Desastre Ambiental em Cataguases

Sebastião Renato Valverde1

 

     A sociedade brasileira assistiu estarrecida nos noticiários das últimas semanas a três principais manchetes: a guerra no Iraque, a pneumonia asiática e o desastre ambiental em Cataguases, MG. Quanto a esta última, gostaria, na condição de cidadão cataguasense, engenheiro florestal e professor de Política Florestal (UFV), tecer alguns comentários importantes para a elucidação de fatos que passaram despercebidos na imprensa e que propiciarão o entendimento do ocorrido na lagoa de sedimentação da antiga Fábrica de Celulose e Papel Cataguazes.


     Em razão da complexidade do assunto, desde já, peço desculpas ao leitor pela extensão do texto e algumas delongas, mas que, no entanto são fundamentais para os esclarecimentos e para que sejam compreendidas as minhas colocações. O que me motivou a escrever esta nota foram os absurdos mostrados na imprensa algumas atitudes irresponsáveis de parte do Poder Público, enfim perplexidades que me chocaram e sobre as quais espero discorrer.


     Inicialmente, gostaria de ressaltar o valor histórico, social e econômico desta fábrica para o município de Cataguases. Ela, juntamente com as antigas indústrias do município, é um marco no desenvolvimento local, ou quiçá para a região da Zona da Mata Mineira, além de ser importante fonte geradora de empregos, rendas e impostos, e como tal merece todo apoio das autoridades locais, estaduais e federais.


     Trata-se de uma fábrica com mais de meio século de existência, que passou por todas as turbulências econômicas e, que hoje, é apenas uma indústria de papel reciclado de pequeno porte, comparada com as grandes empresas do setor. Até o final da década de 80, ela produzia celulose (matéria-prima do papel) e papel, utilizando-se de bambu e, posteriormente, de madeira de eucalipto. Para a produção de celulose por meio do cozimento da madeira usava-se, o Hidróxido de Sódio (NaOH), vulgo soda cáustica, para separar a lignina da celulose (componentes da madeira).

     Devido a pouca consciência ambiental e as raras e caras tecnologias de tratamento de efluentes industriais da época, todo o resíduo da produção, o chamado licor negro (lignina e a soda), era despejado diretamente no ribeirão Meia Pataca, que cruza boa parte do município. Com isto, o curso d’água a jusante da fábrica até desaguar no Rio Pomba, cerca de três quilômetros, ficava comprometido com a poluição e sua ictiofauna desaparecida, além do odor desagradável e do impacto visual da coloração negra do resíduo.


     Com a escalada da conscientização ambiental e o rigor das exigências legais a partir do final da década de 70, a sociedade local passou a pressionar a indústria para que solucionasse o impacto daquela emissão, mas como ela não tinha condições financeiras de implantar um sistema de recuperação, optou-se pelo transporte do mesmo até as lagoas de sedimentação construídas numa de suas fazendas florestais. Esta dista aproximadamente 10 km da cidade de Cataguases e localizada na microbacia do ribeirão do Cágado.


     Vale ressaltar que, atualmente existem tecnologias avançadas e mais apropriadas a este tipo de produção. Nas grandes e mais modernas plantas químicas, o processo de cozimento da madeira utiliza a soda e o sulfeto de sódio (processo Kraft), porém todo o licor é concentrado em evaporadores, queimado numa caldeira de recuperação e os químicos recuperados e reutilizados no cozimento. A queima na caldeira gera vapor e energia elétrica tornando as fábricas auto-suficientes em energia.


     Com um custo de produção mais elevado em razão do transporte diuturno do licor até as lagoas e agravado pela crise que abateu o País nos primórdios dos anos 80, a empresa foi vendida para o grupo Matarazzo que a controlou até o final daquela década. A decadência do império Matarazzo levou a falência da indústria que permaneceu desativada durante uns três a quatro anos. Os empresários atuais adquiriram a empresa, mas reativaram apenas a produção de papel, por meio da reciclagem, que por sinal não produz nenhum resíduo e gera benefício social e ambiental com a reciclagem. Com a falência dos Matarazzos, parte dos ativos foi empregada para pagamento de dívidas trabalhistas e bancárias.


     Como a atividade fim da indústria hoje é a produção de papel reciclado, não mais fez parte dos interesses dos administradores a planta química celulósica e nem a área florestal da antiga fábrica. Desta forma, se houve aquisição, por parte dos atuais empresários, das áreas florestais, foi uma estratégia errada, pois além de imobilizarem o capital em terras, adquiriram um passivo ambiental que nada tem a ver com o processo atual de reciclagem.


     Pelo fato da lagoa não ter alguma relação direta com a produção da empresa, esta foi relegada, restando aos moradores vizinhos, potenciais atingidos, compelidos a monitorá-la a fim de evitar acidentes, como o que ocorreu. Mesmo assim, eles comunicaram com antecedência a policia ambiental que notificou o órgão federal competente, mas que por carência do quadro efetivo de técnicos, não compareceu alegando outras prioridades.


     Ocorreu então o estouro da represa que causou, o que hoje está sendo chamado, o maior desastre ambiental da história do Brasil. De fato foi um grande desastre, mas nem tanto quanto se alarmou. Na verdade, o maior problema foi o lançamento de uma quantidade enorme de resíduo num curto intervalo de tempo e em um curso d’água estreito e de pequena vazão, que não suportou a carga de resíduo e nem foi capaz de diluí-lo.


     Tal fato, fez baixar a quantidade de oxigênio e aumentar o pH da água, causando a morte da fauna aquática. No entanto, acredito que a alcalinidade da substância química já deveria estar baixa em razão da sua diluição quando do processo de cozimento, do período em que ficou estocada na lagoa, aproximadamente 15 anos, e na diluição nas águas dos rios.


     Causam-me espécie os alarmes de que os resíduos eram tóxicos e cancerígenos, causando pânico nas populações das cidades a jusante, levando muita gente a sair das cidades, a estocar água mineral e a suspensão das aulas. Fica a dúvida sobre onde encontraram metais pesados e substâncias cancerígenas na madeira e no hidróxido de sódio. Além disso, cabe lembrar que estes municípios, até a década de 80, captaram água dos cursos d’água contendo tais elementos químicos sem nunca ter reclamado.


     No entanto, quando nos deparamos com a onda de violência, a criminalidade, a corrupção dos fiscais e o poder paralelo que assolam o Rio de Janeiro, isto me faz crer que a notícia deste impacto ambiental serviu como um fato novo na imprensa para dar uma trégua ao que vinha sendo noticiado lá.


     Além disso, me decepcionaram muito as posições de muitas autoridades que, prepotentemente, disseram que iriam mandar lacrar a fábrica. No meu entender, isto não procede pelo fato de que o processo atual de produção de papel nunca produziu tal resíduo, sem contar que num país com alta taxa de desemprego, não podemos mandar fechar uma fábrica que, bem ou mal, emprega quase 300 pais de família, cujo desemprego ocasionaria um caos. Não será causando um desastre social que vamos resolver um impacto ambiental.


     Acredito que as pessoas que defendem o fechamento da fábrica nunca passaram pelo dissabor do desemprego, sabendo que tem família, filhos e compromissos a honrar. Não estamos negando que a empresa tem parte no incidente, porém ele foi acidental, foi um crime ambiental culposo e não doloso. Não é interesse de ninguém de sã consciência causar um crime desta natureza.


     Além disso, foi divulgado que os órgãos ambientais sabiam do vazamento e nada fizeram. O descaso de tais órgãos está mais relacionado com a carência de seu quadro do que a competência dos seus técnicos, situação esta fruto do abandono dos órgãos públicos no Brasil, principalmente após oito anos de (des)governo FHC que sucateou as instituições públicas, entre outros males para o País.


     Finalmente, gostaria de chamar atenção para outro absurdo que foi a imagem do diretor da empresa sendo preso, algemado e escoltado pela polícia federal. Com tanto bandido perigoso, corrupto de terno e gravata e traficantes em liberdade, foram prender justamente um trabalhador, dirigente, pai de família. Isto que é inversão de valores. Se não me falha a memória, não lembro da prisão de nenhum dirigente da Petrobrás quando dos desastres causados por ela em vários estados brasileiros.


     Não havia necessidade daquela prisão e nem da humilhação que ele sofreu. As sanções e punições para este crime são multas, com obrigação de reparar o dano causado e embargo das atividades da indústria, se no caso o resíduo lançado fizesse parte da rotina diária dela, o que como vimos, não é. Talvez, o efeito disso tudo é que, a partir de agora, os dirigentes das empresas, ao realizarem qualquer aquisição vão se preocupar com a existência de passivos ambientais, e com o destino e tratamento dos resíduos gerados nas suas organizações. Outra lição tirada deste episódio é a evolução da consciência ambiental na sociedade brasileira, quando lembro que durante anos estes resíduos foram lançados a céu aberto no curso d’água até pouco tempo atrás, sem que alguém protestasse.

 

1 Professor Associado II do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Viçosa, Viçosa – MG. 36571-000.

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